29 de dez de 2009

C'est la vie

-João Mammana

Não adianta: há dias em que não importa o quanto você diga que sente muito e que já está de saída. Tudo parece pisar em você até que você vire a esquina mais distante ou suma na sombra mais próxima.

24 de nov de 2009

Blasfemando

-João Mammana

- Acho que Deus está entre nós o tempo inteiro.

- Ele deve estar dentro de nós.
- É tão importante pra uma pessoa ter uma crença para se apoiar nos momentos difíceis.
- Com certeza.
- Há um tempo não vou a missas... vou tentar ir a alguma nas próximas semanas.
- Acho uma boa idéia irmos juntos, domingo próximo. Depois podemos jantar na minha casa.
- Ótima idéia! Mas e você que está calado? Não é religioso?
- Eu?
- É, tá aí só olhando pro prato sem falar nada...
- É que eu sou ateu...
- Que horror! Não acredito que alguém possa ignorar assim algo lindo como religião! Você deveria rever seus conceitos!
- Ela tem razão, dê uma chance ao Espírito Santo, homem! Sua vida pode melhorar em muito!
- ...
- ...
- ...
- Mas esse salmão está divino.

18 de nov de 2009

Sombra sem luz

-João Mammana

Um amor acabou
quando, sobre ele
a bomba atômica explodiu.
O que sobrou foi a saudade,
a sombra pulverizada
sobre o muro que não caiu.

17 de nov de 2009

Polissemia

-João Mammana

Maior... amor?
Nem mais idiota existe
que o meu.
Só de pensar nela,
fico triste.
Por me sentir triste,
sinto raiva,
soco a parede e choro.

O que me dói,
a razão,
o peito
ou a mão?

13 de nov de 2009

Soneto do Scotch

-João Mammana

A cevada, o mais nobre cereal
colhido no hemisfério boreal,
pra atingir o seu auge enquanto grão,
precisa ser em bicas mergulhado,
ali dentro ficar abandonado
pra dois dias depois ser retirado,
meticulosamente bem secado
e irreversivelmente triturado.

A farinha que sai da moeção
deve ser colocada em infusão
que é pra se transformar, na água posto,
num líquido bem bonito de rosto
que os especialistas chamam de 'mosto'.

Em grandes continentes específicos,
todo o mosto deve ser derramado
pra lá dentro escorrer entre orifícios,
deixando todo o sólido pra trás,
que mais tarde vai ser aproveitado
pra fazer ração pro gado voraz.

Nessa gloriosa transformação,
junta-se o lêvedo à bela mistura
a setenta graus de temperatura.
Com o efeito da fermentação,
o açúcar sofre quebras de estrutura
que resultam na troca de função.

Através de longos tubos de ferro,
a bebida alcóolica corre em frente
rumo ao alambique de fogo quente
pra então ser destilada finalmente.

Terminada essa última etapa,
o que até aqui resistiu bravamente
é estocado doce e zelosamente
em barris de madeira de carvalho
e lá fica uma dúzia de anos
ganhando experiência, forma e força.

Então de lá é tirado, engarrafado,
rotulado, encaixotado, enviado,
recebido, guardado em prateleiras
e, em pouco tempo, está pra ser aberto
e consumido num brinde aos amigos.

E você, meu amigo, seja esperto,
respeite anos de um processo hermético:
peço-lhe que jamais faça a besteira
de sujar bom uísque com energético.

9 de nov de 2009


Vou falar aqui de um dos meus discos favoritos de todos os tempos: Frances the Mute do The Mars Volta.

Com letras baseadas num diário encontrado no porta-luvas do carro novo do gerenciador da banda e harmonias e melodias baseadas nas viagens de Omar Rodriguez-Lopez, esse álbum acaba se tornando impecável e uma baita opção pra quem gosta de rock, freejazz, música experimental e eteceteras.

O Mars Volta foi fundado pela dupla Omar Rodriguez-Lopez (guitarrista) e Cedric Bixler-Zavala (vocais), ambos ex-At the Drive-In, banda de El Paso/Texas de post-hardcore que ascendeu tremendamente nos '90s e acabou segmentada em TMV e Sparta, esta mantendo o que pôde da sonoridade da banda anterior. E o ATDI acabou justamente porque Omar e Cedric queriam que o disco seguinte da banda soasse mais próximo de Piper at the Gates of Dawn do Pink Floyd (aliás, excelente). Irromperam brigas e brigas que culminaram na cisão.

Há muitas discussões ainda hoje sobre ATDI ser muito melhor que TMV e que a banda nunca deveria ter acabado. Mas atualmente já corre um boatinho de que Cedric teria dito em entrevistas que não ligaria de tocar de novo com o ATDI. E os fãs já ficaram feito cachorro no pé de um dono que derruba comida no chão.

O trabalho do TMV não pode ser definido muito bem, cada álbum soa de uma maneira e trata de um assunto (em geral bizarro e com uma abordagem impensável). A sonoridade é realmente algo, senão revolucionário, ao menos incomum. Músicas caóticas com melodias anacrônicas, climas sombrios beirando o fantasmagórico e letras que demandam um certo saco para interpretar (em alguns casos, possivelmente mal-escritas. Ver De-Loused in the Comatorium).

A banda conta com, atualmente, seis músicos. Além da dupla Cedric e Omar, ainda há Isaiah Ikey Owens nos teclados (velho conhecido dos dois, tocavam numa banda de dub onde Omar era baixista e Cedric, baterista), Juan Alderete de la Peña no baixo, Marcel Rodriguez-Lopez (irmão caçula de Omar) na percussão e Thomas Pridgen na bateria. Saídos da banda, há ainda a turma do sopro, uns guitarristas, bateristas e galerinha que mexe nos barulhinhos adicionais.

Muito amigo de Flea e John Frusciante (Red Hot Chili Peppers), Omar ainda consegue que Frusciante toque em pelo menos uma faixa por álbum nas gravações e também conseguiu que Flea gravasse o baixo nas gravações do primeiro álbum e trompetes no segundo. Não tocaram muitas vezes ao vivo juntos, dadas as circunstâncias.

A banda passou por poucas mudanças e conta com cinco álbuns de estúdio, um de b-sides e um ao vivo (ao menos oficial, sem contar bootlegs). Os 'grandes fãs' da banda aguardam ansiosamente pelo álbum que terá a mesma sonoridade e clima do primeiro e pela saída do atual baterista.

E assim é o TMV. :)

8 de nov de 2009

Depois eu faço

- João Mammana

Quando eu morrer,
não quero que chorem
e quero que guardem as velas
pra quando a força cair.
Não precisam acabar com elas
só pra eu saber pra onde ir.

Quando eu morrer,
não quero que me enterrem.
Pelo contrário,
quero ser empalhado
e ter meu corpo levado
pra onde, em vida, não pude ir.

Arranquem-me as as tripas,
o cérebro e o pulmão,
mas peço por meio deste
que me deixem, intacto, o coração.
Deixem-no guardado em meu peito
pra que um dia ele bata em respeito
dos tiros da revolução,
já que esta, enquanto vivo,
não periga de explodir, não.

Joguem meu corpo no ralo da pia,
façam dele o que eu jamais faria
pois só de pensar, já entro em fadiga.

Depois de tudo,
e só então,
atirem na lixeira o coração
e mandem minha carcaça
praqueles jantares sem-graça
que, em vida, não tenho saco pra ir.

Estrofe bônus

- João Mammana

Pelas manhãs que se perdem num ritmo de matar,
pelas tardes insossas que a gente gasta em estudar
e pelas noites benditas depois do vestibular,
Deus lhe pague.

7 de nov de 2009

Continuando

Alô, posto aqui mais uma poesia de autoria minha :)

Chora a moça escorada na janela
porque o mundo não se importa com ela.
Chora porque a força da indiferença
é maior que a da sua pouca cabeça.

Não quer chorar nem ser vista chorando.
Não acha possível que doa tanto
o simples fato de deixar o pranto
vazar do peito e tingir de fraqueza
seu orgulho tremendo de princesa.

Chora pra fora e deseja em seu peito
que o dia de agora chova por dentro
porque a manhã já vai vencendo a noite,
as comportas já cederam ao choro,
do seu fingimento explodiu a lágrima
e ela admite, ferida e humilhada
que, diante da dor da incorrespondência,
ela... ninguém tem forças pra aguentar
e, fatalmente, tudo o que resta é
pura, única, inexoravelmente
chorar.

6 de nov de 2009

RENAISSANCE

Quase, quase, um ano depois do último (e segundo) post, vou colocando aqui um terceiro. Tava pensando em começar um blog novo só pra eu colocar uns textos que tenho escrito aleatoriamente, nem desconfiava que assim que eu fosse para a página 'blogspot.com' eu já encontraria meu nome e um botão dizendo NOVA POSTAGEM. Confesso ter ficado surpreso pelo fato de eu ter conseguido usar esse blog que eu julgava auto-destruído. Mas vá saber.

Poesiazinha minha:

Uma boa fuga


A noite paulistana,
não importando a estação,
é fria.
Sabes que não durmo no quarto fechado, amor,
tenho claustrofobia.
Abro, então, a janela
e me calo sob o cobertor.
Sendo assim, querida,
como posso te amar em São Paulo
como amava no interior?


E só :)